
me incomoda ninguém falar sobre o filme Bacurau no que se propõe de linguagem. a forma é um grande problema no cinema brasileiro.
a cena com os “gringos” conversando com os “brasileiros” na primeira vez que aparece Udo Kier tem um diálogo em que dizem que “vcs não são como nós”.
é engraçado ser tão cultuada a cena se foi produzida por “nós” cinema brasileiro. e é nesse ponto que o filme de KMF e JD se coloca como ponto de referência que incomoda.
em nenhum momento os diretores apontam o que está sendo feito de cinema no Brasil. o tempo todo é “nós” enquanto representantes em Cannes, no máximo com RT e Karim Aïnouz sobre o possível Oscar, por causa da entrevista no Bial.
em nenhum momento são citados filmes da nova geração. são citadas cineastas que estão investindo em linguagem.
em todo momento o filme é divulgado como “nosso” como o melhor que já foi feito, afinal tem Udo Kier e Sonia Braga.
mas a forma do filme tem uma questão que não é levantada. a forma é didática para os gringos. não é uma forma para o público brasileiro assistir a um espelho de seu fascismo crescente e refletir sobre o que “eles” falam sobre a identificação dos fascistas de fora.
a forma é de filme americano anos 80/90 tipo B ou C. o diálogo, ao meu ver, é para conversar com o público médio americano e reafirmar o preconceito com os latinos.
por isso as cenas com Udo Kier tem uma expectativa que não alcança na forma aquele modelo de tensão que os filmes americanos fazem muito bem, que é a tensão “militar”.
a tensão militar que existe em cada um dos filmes americanos de ação. só para citar de John McTiernen, O Predador, Duro de Matar (1) e Outubro Vermelho.
cito McTiernen porque é confesso de KMF um dos seus prediletos cineastas de filmes de ação.
mas falta em Bacurau aquela “tensão militar” que traduzida na forma. a essa tensão militar também falta acrescentar o jogo de espelhos do olhar estrangeiro para a américa do sul.
exemplos: em Anaconda (1997 dirigido pelo peruano Luis Llosa), a amazônia é um lugar inóspito com guias locais que sao ressentidos contra o capitalismo. onde nada funciona etc.
a resolução dos conflitos é pelo grupo americano, cada um tem um papel dentro do jogo social americano: Ice Cube é o negão que não leva desaforo, Jennifer Lopez a arqueóloga heroína, John Voight um pesquisador sinistrão, Owen Wilson o trapalhão que atrasa a todos.
a “tensão militar” que citei tá ali em referência direta ao Tubarão do Spielberg, a tensão de um bixão que só não é pior que os conflitos sociais do grupo.
essa “tensão militar” tá em todos os filmes de Ridley Scott.
o olhar estrangeiro tá numa porrada de outros, citando aqui o “Bem Vindo à Selva” (2003) do Peter Berg. um filme onde tem o personagem de Udo Kier, só que vivido por Christopher Walken.
e Walken é um Udo Kier MUITO MELHOR nessa joça de Bem Vindo à Selva. Peter Berg é o diretor que mais usa a “tensão militar” em seus filmes. é ator e diretor e faz hoje (junto a Antoine Fuqua e Ridley Scott) os principais filmes de guerra contemporânea que justifica os Estados Unidos pelo mundo (cito “The Kingdom” (2007) e “Lone Survivor” (2013).
Peter Berg faz o cinema mais ideológico do mundo e a forma de seus filmes é exatamente o que tem nessa “tensão militar”, um dispositivo que funciona, tem em todos seriados policiais e de crime, tem em todos filmes de guerra urbana americano.
em Bacurau faz falta essa tensão. a cena que Udo Kier discute com os paramilitares é tão chocha, que só se sustenta pelo grande ator que ele é.
a cena do hypado diálogo na mesa tem o diálogo mas não tem a forma de hierarquia na montagem. a montagem aliás tem o tom de novela, é uma filme para TV.
o ritmo de montagem com a “tensão militar” tem em todos os filmes de Tony Scott.
KMF e JD apresentam personagens paramilitares americanos (ou gringos) sem essa tensão. o que gera uma sensação de vazio, de tensão entre as pessoas ali, e não pela estrutura.
um exemplo de tensão pela estrutura é A Rocha (1996) de Michael Bay (que usa a “tensão militar” até as úrtima), na qual um general renegado do exército americano vivido por Ed Harris tem conflito pela estrutura ideológica, e não com as pessoas. nesse filme ainda se deixam pontas soltas se o personagem de Sean Connery é 007, e Nicolas Cage faz o nerd que se supera.
voltando ao McTiernan e ligando com Sean Connery, o “Curandeiro da Selva” (1992) tem raro uma questão política sobre o desmatamento e roaltyies na amazônia, talvez por ter tido muitos brasileiros na produção, e participação de José Wilker.
o Christopher Walken de “Bem Vindo à Selva” é um capitalista extrativista dono da porra toda que oprime o povo local.
já Udo Kier teria qual estrutura ideológica para basear a tensão? nenhuma. é rarefeita, é “misteriosa”, é uma “metáfora”.
por isso, prá mim, não funciona enquanto forma de filme americano B.
o que resta deduzir que o diálogo é voltado para o público médio americano. eu acho que KMF e JD acertaram total e são louvados pela geração de emprego e renda, pela produção no interior, pela aplicação de recursos, pelo elenco e figurantes, e pelo caminho traçado em festivais.
mas gente! se não se conversar sobre a forma que é baseada em filmes americanos nós vamos cair na discussão da novela que é sobre a “trama”.
é interessante como fenômeno cultural, eu vi aproximadamente 1.500 pessoas ávidas pra entrar na sala de cinema nas duas sessões que fiz em Florianópolis, coisa rara em quase 20 anos que faço isso.
mas não li uma crítica sobre a forma. sobre a estrutura ideológica que motiva as personagens.
gente a forma de Bacurau é de filme B americano.
peguem por exemplo “U Turn” (1997) de Oliver Stone (que tira para mim as melhores performances de Sean Penn, Jennifer Lopez, Nick Nolte, John Voight, Power Booth, Billy Bob T e Joaquin Phoenix), uma coletânea ilustrada da loucura americana.
outro que mantém a estrutura de caçadores e caçado que explode tudo, “O Alvo” do John Woo, excelente na forma.
em Bacurau não é nem trama de Carpenter que tem uma profunda crítica à loucura e à obsessão de fundo nem cangaço que assume a precariedade.
Bacurau fica entre um especial da globo e uma ação que enaltece personagens típicos da estrutura com “tensão militar” mas sem a tensão na montagem, no ritmo, no raccord de pendor entre as forças, e a trama fica na “ilustração ousada” de uma distopia.
sério que a representação do político na rua é uma “crítica”? e se leva a sério como “crítica” social?
poxa em Trapalhões tinha político mais nojentão, mais da real mesmo.
o que acho é que os diretores se auto referenciam como a resposta do cinema brasileiro mas não trazem juntos nenhuma referência regional, não divulgam novos artistas.
e pode ser que sejam a nova referência e gostamos disso, mas é possível termos o direito de contrapor a questão da forma?
GRINGOS
o livro “O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema” (2000) de Tunico Amâncio foi fonte para Lucia Murat rodar o documentário “Olhar Estrangeiro” que mostra os clichês recorrentes da imagem do Brasil no cinema feito por “eles”.
não tem no livro nem no filme, mas lembro do “Ataque Mortal” (no original Killer Bees”) com Rutger Hauer, que mostra Rio de Janeiro na praia e os cara sobem uma montanha de mini-buggie e chegam na floresta amazônica (visivelmente rodado no litoral paulista).
e o filme é tosco, ridículo, mas segue as referências internas para este público que gosta de paramilitares na américa do sul.
outro recente como exemplo, com grande divulgação no netflix é “Triple Frontier” com tradução “Operação Fronteira” com Ben Afleck, uma porcaria de paramilitares detonando traficantes malvadões e com o dilema de carregar toda a grana, em alguma fronteira entre três países.
geograficamente eles estão entre colômbia e venezuela, talvez brasil, e sobem de helicóptero até os Andes. (sim é verdade assistam, ou melhor não).
e o último Rambo que compactua com a onda Trumpista de detonar com os mexicanos malvadões.
eu me pergunto, onde nesse rolê político Bacurau quer se inserir, enquanto linguagem de cinema?
eu acho que falta a tensão militar na estrutura para se assumir na forma. não importa se o personagem matador é trans. a linguagem não é.
e é por isso que A Vida Invisível foi escolhido como representante ao Oscar por ser assumidamente melodrama, coerente, no meu ponto de vista.