Blog · 12 de setembro de 2021

Kate e a Yakuza romântica

mary elizabeth winstead faz tempo que merecia um filme de ação. sua presença desde “scott pilgrim” até a série “fargo”, passando por “cloverfield lane” e o “death proof” de tarantino.

“kate” é o novo netflix com a atriz, no papel de uma matadora de aluguel que foi envenenada e tem poucas horas para se vingar.

com visual scifi “blade runner” de neon esfumaçado anos 80, misturando estética game com “kill bill”, “kate” é um filme bom de ação. uma homenagem ao gênero.

em “john wick” (que redefiniu o gênero) a ação reescrita dos mestres de 100 anos atrás, de buster keaton e harold lloyd, tem um compromisso com a ultra violência.

a reescrita não por acaso é a tônica dos novos filmes netflix. em “kate” a protagonista é uma ripley de “aliens”, com visual de “atomic bonde” com charlize theron.

a história de kate é “nikita” de jean-luc besson. e besson fez em 2019 “anna” que é o mesmo “nikita”.

por sua vez “nikita” foi refilmado nos estados unidos pelo veterano john badham (monstro do cinema, dirigiu desde “embalos de sábado à noite” até meu preferido “war games” com mathew broderick), com o título “a assassina” com bridge fonda.

ok pela história de vingança de uma assassina do contexto “kill bill” e “lady vengeance”, ou “ghost in the shell”. o menos conhecido é “a noiva estava de preto” de truffaut com a maravilhosa jeanne moreau.

em “kate” a relação dialógica com o próprio cinema incomoda ao retratar uma versão romantizada da yakuza, que vem desde antes de “neuromancer” ou “johnny mnemonic” do william gibson.

com keanu reeves como “johnny mnemonic”, o filme de1995 traz takeshi kitano num papel copiado e reescrito no último “ghost shell” com a scarlett johansson.

veja bem, takeshi kitano faz o mesmo papel. e em “kate” assim como “ghost shell” e o último de johansson a “viúva negra” o protagonismo da mulher branca ocidental (descontando o sotaque de leste europeu como a globo faz sotaque de nordestino, enfim).

o que incomoda é a relação romantizada de uma protagonista versão john wayne assassina que kick non-white ass, até chegar nos empresários yakuza samurai cheio de estilo.

com “brother”, o primeiro filme de takeshi kitano nos estados unidos, o ator/diretor faz uma analogia da yakuza com os bandidos de rua de los angeles.

com gangues. e yakuza não é nada além de gangue. são milicianos, não tem nada de romântico. pode ter um quintal com teatro kabuki, tambores taikô, isso só no cinema.

se scorsese romantizou a máfia italiana, foi pelo inferno moral que o atingia enquanto criança de família cristã em nova york.

acho que há uma grande diferença entre os samurais de kurosawa e a yakuza de hollywood, que takeshi kitano teve alguns momentos de clareza.

seisho suzuki com o avand garde super cool, shinya tsukamoto com o horror super trash, e especialmente o ultra violento e poético e visionário takashi miike são influências pra hollywood.

mas hollywood não consegue dialogar com outro tipo de cinema, que não seja john wayne botando ordem no mundo, kicking non-white people asses.

por não aceitar um cinema que tenha personagens que lutam contra machismo, contra o capitalismo e contra a exploração, lutam contra o video game, contra vilões românticos, porque no fim hollywood faz parte dessa gangue, que se apropria de pautas e estéticas.

ou tb pode ser só um filme de ação.