mary elizabeth winstead faz tempo que merecia um filme de ação. sua presença desde “scott pilgrim” até a série “fargo”, passando por “cloverfield lane” e o “death proof” de tarantino.
“kate” é o novo netflix com a atriz, no papel de uma matadora de aluguel que foi envenenada e tem poucas horas para se vingar.
com visual scifi “blade runner” de neon esfumaçado anos 80, misturando estética game com “kill bill”, “kate” é um filme bom de ação. uma homenagem ao gênero.
em “john wick” (que redefiniu o gênero) a ação reescrita dos mestres de 100 anos atrás, de buster keaton e harold lloyd, tem um compromisso com a ultra violência.
a reescrita não por acaso é a tônica dos novos filmes netflix. em “kate” a protagonista é uma ripley de “aliens”, com visual de “atomic bonde” com charlize theron.
a história de kate é “nikita” de jean-luc besson. e besson fez em 2019 “anna” que é o mesmo “nikita”.
por sua vez “nikita” foi refilmado nos estados unidos pelo veterano john badham (monstro do cinema, dirigiu desde “embalos de sábado à noite” até meu preferido “war games” com mathew broderick), com o título “a assassina” com bridge fonda.
ok pela história de vingança de uma assassina do contexto “kill bill” e “lady vengeance”, ou “ghost in the shell”. o menos conhecido é “a noiva estava de preto” de truffaut com a maravilhosa jeanne moreau.
em “kate” a relação dialógica com o próprio cinema incomoda ao retratar uma versão romantizada da yakuza, que vem desde antes de “neuromancer” ou “johnny mnemonic” do william gibson.
com keanu reeves como “johnny mnemonic”, o filme de1995 traz takeshi kitano num papel copiado e reescrito no último “ghost shell” com a scarlett johansson.
veja bem, takeshi kitano faz o mesmo papel. e em “kate” assim como “ghost shell” e o último de johansson a “viúva negra” o protagonismo da mulher branca ocidental (descontando o sotaque de leste europeu como a globo faz sotaque de nordestino, enfim).
o que incomoda é a relação romantizada de uma protagonista versão john wayne assassina que kick non-white ass, até chegar nos empresários yakuza samurai cheio de estilo.
com “brother”, o primeiro filme de takeshi kitano nos estados unidos, o ator/diretor faz uma analogia da yakuza com os bandidos de rua de los angeles.
com gangues. e yakuza não é nada além de gangue. são milicianos, não tem nada de romântico. pode ter um quintal com teatro kabuki, tambores taikô, isso só no cinema.
se scorsese romantizou a máfia italiana, foi pelo inferno moral que o atingia enquanto criança de família cristã em nova york.
acho que há uma grande diferença entre os samurais de kurosawa e a yakuza de hollywood, que takeshi kitano teve alguns momentos de clareza.
seisho suzuki com o avand garde super cool, shinya tsukamoto com o horror super trash, e especialmente o ultra violento e poético e visionário takashi miike são influências pra hollywood.
mas hollywood não consegue dialogar com outro tipo de cinema, que não seja john wayne botando ordem no mundo, kicking non-white people asses.
por não aceitar um cinema que tenha personagens que lutam contra machismo, contra o capitalismo e contra a exploração, lutam contra o video game, contra vilões românticos, porque no fim hollywood faz parte dessa gangue, que se apropria de pautas e estéticas.
ou tb pode ser só um filme de ação.