“privilégios?, a publicidade da marinha pergunta ao fim de uma sequência entre “guerra” e a “vida cotidiana”.

para susan sontag, no artigo “fascinating fascism”, a cineasta riefenstahl fazia propaganda nazi.
walter benjamin falou que a estética nazista do “embelezamento do poder, do estado e da vida repousava sobre um projeto radicalmente racista de inclusão e exclusão, de separação entre o amigo e o adversário” (“obra de arte e reprodutibilidade técnica”).
a propaganda da marinha do brasil veiculada ontem é um audiovisual montado com cenas que geram um choque em sequência, aproximando-se à montagem metafórica que o cineasta soviético eisenstein definiu em 1929 (“forma do filme”).
a montagem metafórica cria tensão entre duas imagens para gerar um terceiro sentido.
a proa de um navio bate contra as ondas. CORTA PARA um surfista manobrando uma onda.
marinheiros fazem fila num submarino e CORTA PARA mulheres dançando numa balada.
soldados com mochila na cabeça gritam CORTA PARA uma mina caminhando no aeroporto com uma mala azul.
e assim por diante.
a paleta de cores das imagens dos civis é desbotada.
se supõe que a sociedade civil vive num mar de privilégios, com liberdade.
e que no exército, marinha e aeronáutica, se vive sacrifícios para manter esta liberdade.
a trilha sonora é com um “póóóin” grave em tom épico, usado em 10 a cada 10 trailers de filme da catástrofe de hollywood.
e aí vale lembrar que a própria hollywood escancara a indústria de guerra como o sacrifício que o jovem tem que fazer pra manter a liberdade do americano.
só que o top gun do tom cruise quer tomar uma breja com seus parça no boteco e tocar no piano “great balls of fire”.
o lado da propaganda brazileira é do “fascismo fascinante” que sontag aponta, e a exclusão que benjamin discute sobre separação entre “amigo e adversário”.
o adversário da marinha do brasil somos nós, a sociedade.
surfar, fazer yoga, dançar numa balada, e viajar, são liberdades que na montagem da propaganda, devem ser combatidas.
lembra jack nicholson em “questão de honra” (rob reiner, 92), general com o mesmo discurso fascista.
hora de rever “rádio auriverde” (90) de sylvio back.